segunda-feira, 29 de julho de 2013

De qual quadrilha faço parte?

Eu cheguei a uma reflexão, talvez pouco ortodoxa, mas que faz bastante sentido. O mundo é composto por bandidos, que estão divididos em dois tipos: os que a sociedade considera bandidos e os que a sociedade considera cidadãos de bem. Todos eles são bandidos, mas de facções diferentes. Sim, é isso que estou dizendo: somos todos bandidos.

Começo pontuando uma queixa frequente expressa pelo grupo dos cidadãos de bem: "Para um bandido, uma vida vale menos do que um celular ou uma carteira, isso é um absurdo". Queixa legítima, é mesmo um absurdo. Tem gente que morre mesmo por um celular. Mas esse mesmo cidadão de bem pega uma pessoa que está batendo carteira na rua ou furtando celulares, junta com mais uma quadrilha de cidadãos de bem e lincham o rapaz, às vezes até a morte. Espere um pouco! Não tínhamos acabado de dizer que uma vida valer menos que um celular ou uma carteira era um absurdo? Agora fiquei confuso.

Alguns justificam: mas ele me ameaçou de morte. Mas matou? Continua a velha história: o cara rouba seu celular, você consegue pegar ele e desce o pau, às vezes até a morte (ou atropela, como aconteceu recentemente e a população achou o máximo). Isso sem contar com os que não assaltaram a mão armada, cometiam apenas furtos. Ou seja, para você também a integridade física ou a vida humana vale menos que um celular. Perceba então que, por essa lógica, não há nada de errado em matar para roubar um celular. A vida humana, tanto para a quadrilha dos bandidos quanto para a quadrilha dos cidadãos de bem, vale menos do que um celular.

Outro exemplo: recentemente, um homem completamente bêbado ficou nu em uma festa de formatura. Um grupo de amigos meus falaram que, se estivessem lá com a namorada (sobretudo pela falta de respeito a ela), teriam entrado dando voadora nele, que a punição merecida seria o linchamento. Estamos de volta à moral em que a vida humana vale menos do que outros valores (agora, um dito pudor subjetivo de subjacência judaico-cristã). Não vou entrar no quão machista é essa partida em defesa da "inocência da minha indefesa namorada". Isso fica para outra discussão. A questão é: seria o ato de ficar pelado em público uma falta ou um crime mais grave do que lesão corporal (talvez grave) com o risco até de morte? Essa moral sexual é mais importante, novamente, do que a integridade física humana?

Enfim, acho que somos um bando de bandidos hipócritas tentando mostrar ao mundo que o crime do outro justifica o nosso. Que nós somos cidadãos de bem por praticar crimes contra quem pratica crimes (às vezes menores do que os nossos). Isso me faz pensar naquele cara que matou 50 pessoas queimadas vivas numa pilha de pneus, está no presídio e, quando chega um estuprador, arrebenta a cara dele. O motivo? Porque estupro é um crime inaceitável. Claro, afinal matar 50 pessoas queimadas vivas numa pilha de pneus é um crime adorável, né?

Vivemos em um mundo bandido em que a vida e a integridade humana está longe de ser o bem mais precioso. Somos um monte de bandidos hipócritas que apenas acham que a quadrilha rival está errada e a nossa quadrilha é uma pobre vítima defensora da boa sociedade. Pense nisso. Você acordou hoje se sentindo um cidadão de bem?

segunda-feira, 11 de março de 2013

O pior momento da minha vida e o melhor de mim por mim mesmo


                1. O prenúncio

Há algum tempo venho sentindo vontade de compartilhar a experiência mais intensa e sofrida da minha vida. Foram momentos tristes, apavorantes, mas que mostram que sua luta só é perdida quando você se rende. Eu nunca fui muito do tipo de autoajuda... nem escrevo, nem leio... mas aparentemente, é o que de melhor posso fazer agora com a minha história. Sendo mais claro: sim, a intenção desse texto é dizer a quem está passando por um problema que não existe grau de dificuldade que torne um problema insuperável. É... segue uma autoajuda de quem nunca gostou de autoajuda... e acabou movido a escrever algo do tipo.

Pois bem. Tudo começou em 23 de dezembro de 2010. Estava angustiado. Um relacionamento, que um dia quase virou noivado, estava por um fio. Ela nem sequer morava no mesmo estado que eu. Marquei um voo. Provavelmente, seria o último encontro. O voo seria por volta das 23h. Passaria o natal lá. Acordei naquele dia com um pouco de cólica.

Eu tinha um programa de TV na época. Por volta das 8 horas da manhã, já estava no estúdio gravando. Senti cólica durante todo o programa. Achei que estivesse com indigestão. Passei o dia sentindo isso, tomando remédios para o problema que eu achava que tinha e nada se resolveu. À tarde, fui a um bar com meu amigo e colega de programa. Não aguentei de cólica e voltei para casa.

Por volta das 20 horas, minha mãe, que é enfermeira, me disse que eu deveria ir ao hospital, pois poderia ser apendicite. Fui. A médica me examinou e achou a mesma coisa, mas teria que fazer exames de imagem para se certificar. Me avisou de antemão: provavelmente você vai ter que adiar sua viagem. Com a possibilidade de apendicite, minha frustração foi enorme. Realmente, teria que cancelar meu voo.

Me encaminharam para a sala de ultrassom. Um alívio e um efeito rebote violento. Com o aparelhinho na minha barriga, o médico falou:

- Seu apêndice está bom. O problema é seu rim direito.

Eu, ingenuamente, perguntei:

- Estou com cálculo renal?
- Não dá pra ver... não descarto, mas não é o problema agora... aparentemente tem uma formação tumoral.
- Como é?
- Um tumor.

Eu tinha entendido que formação tumoral significava tumor. Só preferi achar que tinha entendido errado.

- É maligno doutor?
- Não é possível saber. Só em uma tomografia com contraste.
- Tenho alergia a iodo.
- Então não vai dar para saber. Depois você tem que marcar uma ressonância magnética com contraste.

Fiz a tomografia sem contraste. Meu rim direito tinha um tumor de 20cm. O médico manteve a afirmação de que não poderia me dizer se era maligno ou benigno. Voltei ao ambulatório. A médica me disse “Alyson, eu vou internar você”. Eu me recusei. Tinha uma viagem a fazer. A última. Meu irmão estava comigo. Ficou preocupado, ligou para minha mãe e pediu que ela me convencesse a ficar. Minha mãe me ligou calmamente, me disse que ficasse, que deixasse que os médicos cuidassem de mim. Senti saudade de ter apendicite.

A médica me olhou e disse. “Alyson... fique aqui... a escolha é sua, você pode ir... mas eu gostaria muito que você ficasse”. Houve uma pausa. “Alyson... pode ser câncer”. Fiquei em silêncio. Não dei uma palavra por sabe-se lá quanto tempo. E ela, tomando o silêncio como resposta, falou “Vou preparar a papelada para sua internação”. E me internei. Me deram algum remédio que aliviou minha dor.

Dormi. Não tive pesadelo, não tive insônia. Dormi profundamente. Acordei bem, mas ainda com um pouco de dor. Liguei para o meu urologista. Ele foi me ver e foi direto:

- Você vai precisar de uma cirurgia grande para remover esse tumor. Não sabemos se é benigno ou maligno, mas vamos remover seu rim.
- Não tem como salvar nenhuma parte do rim?
- Não. O tumor já tomou todo o rim e está maior do que ele. Quanto a isso, não se preocupe. Vive-se normalmente com um só rim. Vou lhe dar alta, pois seu caso requer muito estudo antes de lhe operar. Não vai ser agora.
- Então vou viajar.
- Sugiro que não. Você pode sentir dor e precisar de um hospital. Melhor estar perto de casa... melhor ficar.

Fiquei.

Acabo de descrever o que daria início à fase mais terrível da minha vida. Aos 27 anos, eu viveria o que eu achava que chegaria aos 80 sem conhecer.

2. O anúncio

Passei a festa de natal em família. Ao meu avô e à minha avó foi dito que eu tinha uma lesão renal provocada por um acidente de moto que havia sofrido em janeiro daquele mesmo ano. Que seria operado, retirado o rim e que tudo voltaria ao normal. Ainda sentia dor. No dia seguinte, a dor foi embora. E assim como nunca me incomodou antes, nunca voltaria e me incomodar depois.

Nesse período, começou a bateria de exames. Posso dizer que nunca havia sido tão examinado, enfiado em máquinas e furado nas veias como nesses dias que se seguiram. Raios-x do pulmão, ressonância do abdome e aparelho urinário, ecocardiograma transesofágico, exame de sangue, de urina, eletrocardiograma, exame de coagulação, etc. etc. etc.

Indo direto ao ponto. Fiz a ressonância. Lá encontraram um tumor de 20 centímetros no rim direito. Mas não foi só isso. Havia dois gânglios linfáticos comprometidos próximos à aorta abdominal, dois ou três nódulos no fígado. O tumor cresceu pelo rim, entrou na veia renal e subiu a veia cava (a mais importante do corpo, que sai do coração e vai até o abdome) e cresceu até o que aparentava ser a altura do fígado.

Fiz um ecocardiograma transesofágico para saber até onde estava crescendo esse tumor. Bastante incômodo. Meu corpo é extremamente resistente a sedativos e anestésicos. Tomei um sedativo que só fez efeito depois que o exame acabou. Esse procedimento nada mais é do que enfiar uma sonda na garganta para ver o coração mais de perto.

Conclusão: o tumor cresceu pela veia cava, subiu até a altura do átrio direito. Em outras palavras, ele entrava no coração.

Fomos ao médico para conversar. Minha mãe entrou comigo, meu pai ficou do lado de fora no aguardo. As palavras foram duras.

- Alyson, pela reação ao contraste, é quase certo de que é câncer e os nódulos no fígado são metástases. Você vai fazer uma cirurgia grande. Mas tem chance. 60 a 70% de chance. Câncer de rim não responde à quimioterapia. Os tratamentos para essa doença são quase inexistentes. Quase todo remédio passa sem efeito algum. A única conduta é a cirurgia.

Fomos para casa com uma trave enfiada nos olhos. Meu pai e minha mãe choraram muito na mesa durante o almoço. Eu fiquei quieto. Me tranquei no quarto e chorei. Uma das poucas vezes. Conto nos dedos de uma só mão as vezes que chorei.

3. Enganos e desenganos

Fomos aconselhados a ir a São Paulo. Lá haveria muito mais estrutura para cuidar do meu caso. Mas tentamos ficar por aqui, em João Pessoa ou Recife. Fomos a Recife ver quem, segundo informações colhidas, era um dos melhores cirurgiões hepáticos do país. O problema é que o tumor passava por trás do fígado. Precisaríamos de todo tipo de cirurgião, inclusive hepático. Mãe nenhuma está preparada para ouvir palavras tão desgraçadas quanto as desse médico (palavras essas que eu só soube por acidente e muito tempo depois).

- Dona Afra, não tenho coisas boas a dizer. Acontece que o tumor está em um nível da veia inoperável. Não podemos fazer mais nada pelo seu filho.

“Não podemos fazer mais nada pelo seu filho”. Duvido uma mãe ou pai que ouça isso, baixe a cabeça e diga “ok... que pena”. É onde eu digo: ninguém tem direito de dizer que sua luta acabou. Você é o dono da sua luta e você é quem tem que dizer onde ela começa e onde ela acaba.

- Doutor, e se fizermos quimioterapia?
- Infelizmente, não vai resolver nada.
- O que você quer doutor? Que eu diga ao meu filho que vamos esperar ele morrer? Nós vamos fazer alguma coisa por ele. Não vou cruzar os braços e esperar.
- Se a senhora quiser, posso conversar com colegas e pensar em tratá-lo com quimioterapia. Mas é placebo.

Minha mãe saiu. Disse que eu faria quimioterapia. Em seguida, o médico saiu e eu perguntei “doutor, vou fazer químio?”. Ele respondeu “vou conversar com colegas e direi uma resposta mais precisa depois”.

Nesse ínterim, os médicos de São Paulo ligaram dizendo que não sabiam se meu caso era operável, que não sabiam se tinha jeito, mas que iriam estudar mais e consultar colegas cirurgiões vasculares. Minha mãe entrou no inferno em vida. Não contou para o meu pai, pois achou que ele não tinha condições de receber a notícia. Contou para os meus irmãos e para meu tio, irmão dela. Era uma quinta-feira. Passaram-se quatro dias. Um fim de semana de merda para a minha mãe. Quem viu contou que ela chorava com uma amargura difícil de descrever. Se continha na minha frente.

Na segunda-feira, ela recebe a ligação mais feliz possível de São Paulo.

- Dona Afra, os cirurgiões vasculares entraram em contato e disseram que podem operar. Eles já fizeram cirurgia como essa antes e não foram duas ou três. Disseram que é perfeitamente factível.

4. Aproximação (breve comentário)

Meu avô (materno) nunca foi do tipo carinhoso, mas gostava da presença da gente. O amor dele por nós sempre foi claro, mas à maneira durona dele. Reclamão, seco, mas que adorava conversar. Nos últimos tempos, eu vinha sendo muito ausente na casa dele, apesar de ele morar no mesmo bairro. Ele reclamava minha presença.

Essa doença trouxe um lado bom: passei a ir lá com frequência. Ele disse “você andou ausente, mas agora está compensando tudo”. Tive uma convivência íntima com meu avô e minha avó nesse período de doença. Eles ficaram felizes e eu também.
  
5. Boas e más notícias

A trajetória até aí era de que uma notícia ruim atraía a outra e que nunca acabaríamos de nos decepcionar. Cada vez era algo pior. Foi aí que surgiram algumas notícias confortadoras. Mas esse conforto teve uma pausa. O relacionamento de que havia falado acabou. Não por culpa dela, não por minha culpa. Apenas não deu certo. A dor aumentou.

Estava tudo preparado para ir a São Paulo. Meu avô já vinha enfraquecendo pela idade avançada (86 anos) e pela desistência de viver. Mas, dessa vez, ele caiu de cama. Muito fraco, delirando, com alguns momentos de lucidez. Ele viveu 86 anos completamente lúcido. Mas, naquela semana, a coisa mudou. Na véspera de ir a São Paulo, fui lá vê-lo. Ele estava lúcido, mas fraco e falava com dificuldade, pausadamente. Esse foi o diálogo:

- Oi vovô.
- Oi Alyson. Você vai viajar já?
- Vou amanhã.
- Você vai a São Paulo, vai se operar e ficar bom. Vai voltar pra cá e continuar sendo esse mesmo rapaz feliz que sempre foi.
- É vovô. E quando eu voltar, você vai ter se recuperado também e a gente vai conversar muito. Tem uns casos do sertão que você ficou de me contar, lembre disso pra quando eu voltar.

Saí e chorei. Me perguntaram por que eu chorava. Eu respondi “essa é a última vez que eu vejo meu avô”. Tentaram me consolar dizendo que não, mas quem acreditou neles? Nem eles mesmos.

Eu estava em São Paulo. Comigo estavam meu pai, minha mãe e minha tia, cunhada da minha mãe. Eu queria que ela estivesse lá, pois quando me acidentei de moto, ela trouxe uma energia muito boa no hospital comigo. Tentei me internar em um hospital coberto pelo meu plano de saúde, que é nacional. Meu plano negou. Entramos na justiça. Liminar favorável a mim. Nesse tempo de brigas judiciais, meu avô foi internado em João Pessoa. Entrou na UTI. Minha mãe, que estava em São Paulo, mesmo relutante, voltou para João Pessoa. Se não fosse minha insistência, ela teria ficado comigo.

Meu avô morreu. Morreu sem saber que eu tinha câncer, esse é meu consolo até hoje. Meu irmão, minha irmã, meus primos, minha mãe, meu tio, todos choraram juntos e foram ao velório enquanto eu sofria à distância junto com meu pai e tia. A sensação de solidão era terrível. Meu pai, que não tem pai e mãe há muitos anos, sofreu como se tivesse perdido o pai pela segunda vez. Dizem que desgraça chama desgraça. Estava eu com uma doença grave, um noivado rompido e meu avô morto.

Minha solução? Rir. E meu riso traduzia e, ao mesmo tempo, servia de terapia a uma dor lancinante. Sou comediante stand up. Subia nos palcos em São Paulo, ria, fazia piada, saía com amigos. As pessoas me viam e diziam “não acredito que você está passando por tudo isso com tão boa energia”. Escolhi lutar. Escolhi ser feliz. Fui até assaltado nesse tempo. Dane-se, a vida segue.

Lembro de, ainda em João Pessoa, ter ido ao GAPC (Grupo de Apoio a Pessoas com Câncer). Eu ajudava financeiramente esse grupo, sem saber que tinha câncer. Depois, fui lá falar “agora sou público alvo de vocês”. A responsável pelo grupo me falou, no final da conversa: “achei que ia te ajudar e foi você quem me ajudou. Me deu uma lição de vida. Como você pode estar tão sereno em uma situação dessa? Minhas forças foram renovadas”.

Essa é a chave. Vivi um problema gigantesco, e nunca parei de sorrir.

6. Encarando o problema

Tive medo. Minha família sofreu como nunca. E esse medo deve ser vivido. Não devemos fugir dele. Um dia, quando não aguentava  mais, entrei numa luta moral comigo mesmo. Queria um consolo da minha mãe, mas tinha um pedido perturbador para qualquer mãe. Nenhuma mãe quer ouvir isso... mas eu não aguentei e falei.

- Mãe, me fala...
- O quê, meu filho?
- Me fala que eu não vou morrer.
- Meu filho, eu tenho muita fé de que você vai viver.

Estava internado, quando o oncologista falou.

- Alyson, você deve se preparar. Seu tipo de câncer é misterioso. Não tem cura. Se eu fosse você, me inscreveria em grupos de estudos, onde se fazem testes de novos tratamentos. O tumor será retirado, mas suas chances de viver normalmente não são grandes. Você vai, provavelmente, viver uma vida em hospital, indo e vindo. O tumor será retirado, mas dificilmente você ficará livre disso.

Os exames eram os piores possíveis. Câncer renal, que não tem tratamento, com metástases e invasões. Estava tão grande, que pressionava o pâncreas e o duodeno. Havia possibilidade de perder esses órgãos também. Se estivesse aderido à veia cava, perderia essa veia também. Fui operado. Todo o tumor foi retirado com êxito e não perdi o pâncreas, nem o duodeno, nem a veia cava.

A UTI é uma tristeza. Gente morre do seu lado, chega outro esperando morrer. Acordei entubado, pois não respirava sozinho. Um tubo que ia da boca até a traqueia, bloqueando minhas pregas vocais. Tinha uma sonda que entrava do nariz e ia até o estômago (sonda nasogástrica). Tinha uma sonda que ia da uretra até a bexiga (sonda vesical). Tinha uma agulha de soro numa veia do braço, um cateter na jugular, uma agulha dolorosa na artéria do punho, vários eletrodos no peito, um tensiômetro que verificava minha pressão de meia e meia hora automaticamente, um troço no dedo para medir o batimento cardíaco, uma bolsa de sangue na veia para transfusão e um cateter na coluna com morfina e outras drogas para eu não sentir a dor terrível da agressão da cirurgia, que abriu meu abdome de um lado ao outro. Um constante "pi... pi... pi...". Minhas mãos estavam amarradas à cama, para não correr o risco de eu acordar estressado e arrancar tudo. Tudo bem. Isso não teria acontecido, mas é bom prevenir.

Passei duas horas com o pulmão artificial depois que acordei da cirurgia, que durou oito horas. Aquilo me desesperava, pois eu queria beber água, estava muito desidratado, mas não podia. Pedi papel e caneta. Escrevi: quando vão tirar isso de mim? Responderam que só quando tivessem certeza de que eu estava respirando autonomamente.

Quando a fisioterapeuta falou “ok Alyson, vamos tirar esse tubo”, eu sorri. Ela falou “Que sorriso mais lindo”. Assim que ela tirou, eu disse “quero água”. Me deram só um pouco. Não importava quanta água eu bebesse, sempre tinha sede.

Os enfermeiros, fisioterapeutas e médicos que cuidavam de mim se abismavam com meu bom humor. Teve uma enfermeira que veio me dar banho e eu falei:

- Sou um rapaz direito... tá me vendo pelado, vai ter que casar.
- Eu já sou casada – falou rindo.
- E seu marido sabe que você tá me vendo pelado? Ele vai achar ruim.

                Não vou detalhar muito mais a experiência da UTI. Aconteceram muitas, muitas coisas desagradáveis. Mas vou passar direto.

                Quando eu já tinha tido alta, o oncologista me manda um e-mail. “Alyson, tenho ótimas notícias da sua biópsia, venha ao consultório que vamos conversar”. Lá, ele me falou que o tipo de câncer que eu tinha não era tão agressivo quanto ele achava e que eu tinha boas chances de viver uma vida normal.

                7. De quem é a luta?

                O fato é que eu sofri muito. Tive medo, tive tristeza, tive esperança e tive perda de esperança. Em alguns momentos, na dificuldade de achar o hospital em que ia ficar em São Paulo e no medo de o problema não se resolver, eu falei “já chega, desisto. Pai, mãe, decidam tudo por mim. Qual hospital, qual médico... vou ficar passivo a tudo”. Mas essa postura não durou nem mesmo um dia.

                De quem é a luta? A luta é minha. Note-se que eu recebi as piores notícias possíveis. Tudo foi piorando. Minha dor era excruciante. Era muita coisa. Um médico chegou a dizer que eu iria morrer. Estou, hoje, mais de dois anos depois, escrevendo esse testemunho.

                Recentemente, descobriram que eu tive uma recidiva (recaída da doença) no fígado e em três linfonodos. Estou em tratamento farmacológico. Cabe um adendo aqui. O Câncer renal tem tratamento há apenas seis anos. Na época que descobri, o remédio top era um. Hoje já existe outro mais moderno, que é o que estou tomando. Meu médico aqui me explicou que a doença não tem cura, mas tem controle. Você toma um remédio que, teoricamente, impede o crescimento dos tumores e previne o surgimento de novos. Ele me disse “a ciência tem feito progressos imensos nos últimos seis anos e, nesses dois últimos, ainda mais. Quem sabe, daqui a dois anos, eu tenha melhores notícias? Por enquanto, a ideia é que você tome remédio pelo resto da vida. Mas pode acontecer de criarem um definitivo, que você tome por um tempo e pare”.

                Esse remédio me traz muitos efeitos colaterais indesejáveis. Diarreia, enjoos, pressão alta, dores musculares, sensibilidade nas mucosas e na pele, fadiga, dor de cabeça, fraqueza, minha barba está branca e meu cabelo pode ficar também e muitas outras coisas. Mas não é o tempo todo, às vezes estou ótimo, às vezes ficou meio mal. E como estou com isso? Vivo e com os mesmos sonhos de antes.

                É essa a mensagem principal que eu tenho. Ninguém tem o direito de dizer quando você deve parar a sua luta. Alguém disse que eu iria morrer disso, antes mesmo de poder me operar. Ele estudou anos e anos para isso. Ele sabe mais do que eu. Ele é um grande conhecedor do corpo humano, coisa que eu não sou. Mas uma coisa eu sou que ele não é: o dono do corpo do qual ele falava. Por isso, eu sou o dono da situação.

                Eu nunca me entreguei. Nunca tive sequer depressão por causa desse problema. A luta é minha. Meus pais, meus médicos, meus irmãos, amigos, estão todos comigo para ajudar na luta, mas a luta é minha. E eu digo quando ela acaba e eu decidi que ainda não é o momento.

                Alguns dizem “meu médico me proibiu de comer tal e tal coisa”. Meu médico não me proíbe de nada. O corpo é meu. Tudo é minha decisão. Eu digo o que fazer e o que não fazer. Meu médico disse que álcool seria extremamente perigoso para mim, pois meu remédio sobrecarrega o fígado. Porém EU decidi levar em consideração o conselho dele e resolvi não beber. Eu não bebo porque escolhi. Eu tenho escolha, quem disse que não? Eu poderia dizer “não me importo... vou beber e viver a vida normal. Se der problema, eu já esperava”. Mas resolvi não escolher isso. Sigo os conselhos dos meus médicos. Mas a decisão é minha, eu sou ativo na situação inteira. Eles sugerem, eu decido.

                Alguns se surpreendem e me perguntam se eu já me desesperei. Nunca. Tive medo, angústia, tristeza, chorei... mas a esperança sempre esteve presente. Digo mais, o bom humor sempre esteve presente. Eu saía com os amigos... dei-lhes tanta liberdade, que eles faziam piada disso e eu ria.

                Quem me via num restaurante, num bar, jamais sonhava que eu estava com aquele problema. É saudável sentir angústia e chorar. Mas se entregar a isso não. Você é quem diz que caminho vai tomar diante da dor. Porque a dor é inevitável, mas se entregar a ela não. Tem coisas que eu não posso controlar. Se eu controlasse tudo, eu não teria câncer. Mas o importante é não perder o controle daquilo que está ao seu alcance. Como disse um grande amigo meu, Ricardo Nunes, “No que você puder agir, aja. Onde houver limitação, limite-se”.

                Há tantos problemas no mundo. Jamais me darei o direito de dizer “meu problema é maior do que o seu”. Cada um carrega sua dor. Alguns sofrem muito com um problema que outra pessoa encararia com serenidade. Por isso, o que escrevo aqui não é só para quem tem doenças graves, mas pode ser para alguém que está desesperado porque está no cheque especial. Todo mundo enfrenta problemas que parecem intransponíveis. A boa notícia é que eles não são.

                A cura está em cada um. Quem se entrega definha e morre. Se meu avô não tivesse perdido a vontade de viver, teria vivido mais. Estava bem idoso, mas ainda tinha um pouco de vida pela frente, se tivesse escolhido por ela. Sabe-se até por provas científicas que quem acredita na vida e na cura vive mais.

                Não passo horas da minha vida pensando como seria se eu não tivesse câncer. Não perco tempo pensando se vou morrer disso. O câncer não mata, ele PODE matar. Há uma longa distância entre essas duas coisas. Não acredita?

                Já ouviu falar de alguém que morreu porque se engasgou com um pedaço de carne? Comer mata? Não, apenas pode matar. Então, me dei conta de que passei minha vida toda correndo risco. Atravessar a rua, dirigir um carro, entrar em um avião, comer, beber água, tomar cerveja. Tudo pode matar. Mas até agora, não me matou. Mas já matou muitos.

                Significa que, agora, com o câncer, eu tenho apenas um risco a mais de morrer, entre os milhares que corro todos os dias. Aí alguém diz “sim, mas a porcentagem é maior”. É? Talvez, não sei. Confesso que não sei se 5% ou 95% das pessoas que têm a mesma doença que eu morrem. Nem quero saber. Pois eu não sou um número, uma porcentagem. Sou uma pessoa única, ninguém é igual a mim!

                Vou inventar uma porcentagem aqui e vamos pensar juntos. Digamos que 80% das pessoas que usam cinto de segurança sobrevivem a um acidente de carro e 20% morrem. Outra. Digamos que 80% dos que não usaram cinto morreram e apenas 20% sobreviveram. Agora, digamos que João estava de cinto, mas morreu no acidente. De que adiantou 80% sobreviverem para João? Carlos estava sem cinto e sobreviveu. De que adiantou saber que ele tinha 80% de chances de morrer? Carlos sobreviveu. Ele foi os 20%. Melhor ainda, ele foi Carlos.

                Assim, eu digo a mesma coisa. Não sei quais são as chances de eu morrer disso ou viver até a velhice e morrer pela idade. Não faz diferença. Ou eu vou morrer de câncer ou eu não vou morrer de câncer. E pronto. E, se há a possibilidade de eu morrer em função dessa doença, ao menos não terei vivido em função dela.

                8. Enfim...          

Não nomeei este tópico de conclusão, pois não está acabado. A luta continua. Não apenas minha luta, mas a de todos. A luta principal é continuar vivendo e lutando. Quem tem câncer não é sindicalizado, assim como quem atravessa ruas não é. Ambos podem viver ou morrer.

O sofrimento é inevitável, mas a maneira como vou encará-lo pode me salvar ou me condenar. Eu vivo feliz. Se às vezes eu tenho medo? Alguém tem dúvida disso? Tenho medo, mas tenho muito mais na vida do que medo.

Um dia, eu pensei “minha vida vai ser uma luta contra o câncer”. Automaticamente me corrigi, ao ver o absurdo do que eu falei. Minha vida vai CONTER uma luta contra o câncer e não ser. Eu sou muito mais do que isso. A vida tem muitos, muitos aspectos, muitos ângulos, muitos padrões de iluminação, de cenário e de maquiagem. O câncer, na minha vida, é um aspecto em um milhão.

Não importa o tamanho do seu problema e se alguém disse que não adiantava mais lutar. A luta é sua e você pode. E sua vida é muito mais do que apenas essa luta. Tem muito chão pela frente. Um dia, achei que morrer seria o melhor. Hoje, vejo que ainda tem muita coisa que quero realizar e estou satisfeito de ainda estar vivo. Namoro, tenho uma relação ótima, com alguém que amo, com quem quero me casar e que me dá forças todo dia para continuar minha luta, tenho minha família, meus amigos, trabalho e continuo querendo as mesmas coisas. Quem não tem câncer quer salário melhor, quer viver bem, quer amar, quer casar ou se separar, quer ter filho ou viver sozinho... quem tem câncer também. Eu mantenho os mesmos sonhos, aspirações, frustrações, alegrias e raivas de antes da doença.

Acredito no ditado querer é poder, mesmo não acreditando em querer é realizar. Se a gente quer algo, mas diz que nunca vai chegar lá, a gente não chega mesmo. Mas se a gente luta com todas as forças, há uma chance. Não significa que aquilo que você quer você VAI conseguir. Mas significa, pelo menos, que você tem uma chance. Às vezes a gente não consegue. Mas a gente só vai saber se tentar. Se não tentar, a resposta é não. Se tentar, a resposta é talvez. E isso é a vida... não existe um sim categórico. Tudo é um grande talvez. Exceto quando a gente desiste, que abre mão do talvez, da possibilidade do sim e abraça o não como se não houvesse outra opção.

Eu não escolhi ter câncer, mas escolhi o talvez. Vou continuar vivendo? Talvez. Vou correr atrás disso? Sim. Esse é o único sim que posso dar. Espero poder ter ajudado a que cada um que leia isso escolha o mesmo sim.



Tenho mais dois textos relacionados ao mesmo problema. O primeiro fala sobre brincar com o próprio problema e o segundo é um conto que escrevi baseado nessa história, do ponto de vista dos pais:


terça-feira, 25 de setembro de 2012

Sala de espera (o veredicto)

     
Angústia. A mãe entra com o filho. O pai prefere ficar do lado de fora. Quer ouvir o veredicto final de uma pessoa amada e não a palavra seca de um profissional. Será o veredicto a pena capital? A mãe acompanha seu filho, retraído, como que algemado, que, até pouco tempo atrás, prometia muitos anos e sucessos incontáveis pela frente. O pai fuma um cigarro, para não terminar de destruir as próprias unhas.

       Mãe e filho conversam sentados, esperando sua vez. Estão cheios de papéis, envelopes e laudos lidos repetidas vezes sem conseguir traduzir em português. Ela sorri para ele “põe nas mãos de Deus” enquanto, em pensamentos, fala “Deus, tão cedo? Deus, antes de mim?”. Uma mulher sai de uma sala, chama o nome do rapaz. Para os esperançosos, aquela voz soa suave, como a última dor que precede o alívio. Não é o que ouve a mãe. Ouve muito mais a voz de um meirinho que diz “todos de pé”, antes do pronunciamento do juiz: condeno o réu à morte.
 
       Entram na sala. Finalmente um profissional lerá os papeis. Um homem de autoridade. Ele abre todos os envelopes. Folhas e mais folhas de imagens que só podem ser vistas contra a luz. Ele coloca todas as catorze folhas de imagens sobre o negatoscópio, uma a uma. Faz valer a teoria da relatividade. Cerca de cinco minutos, que, para a mãe, parecem ser uma vida de torturas no inferno, criação de Deus para puni-la sabe-se lá por que crime. Senta-se à mesa, diante deles, e lê cada um dos três laudos do extenso e exaustivo processo. Fica calado.

       Do lado de fora, o pai acende outro cigarro. Seu rosto diz “não tenho nada que ver aqui”, enquanto a si mesmo grita “se, em vez dele, fosse eu, eu seria feliz”. Repete consigo “não vai dar nada... não vai dar nada”. Em um nível mais profundo da consciência, fala “não tente mentir para si mesmo”. Na menor expressão dessa voz profunda, acende mais um. O tremor violento das mãos dificulta mirar o fogo do isqueiro na ponta do cigarro.

     A mãe lembra dos tempos de infância do seu filho. Demorou a falar. Acho que vai crescer cheio de problemas de linguagem e de dicção. O pai pensa conectadamente “quem diria... virou poliglota logo quem eu achava que nem em português se daria bem”. Era extremo. Sempre foi. Se irritava fácil. Criança exagerada aquela, pensam os dois. Se não dessem bola pro que falava, fechava a cara e saía do recinto fora de si.  
 
       Extremo em tudo. Se brigava com os irmãos, sentia um ódio tão forte, que gastava toda a cota de uma vez só. Pouco tempo depois, os amava como se nada tivesse acontecido. Quando discorda de nós, discorda visceralmente, acredita no oposto total. Extremo em tudo, inclusive na sua repressão do choro. Igual a hoje. Não chora nada.

       O homem de autoridade diz: vai ser grande. A mãe tenta entender por quê. Lembra de tudo grande. O rapaz espera tudo grande. Vou pilotar Concordes, estudar na melhor instituição possível. Cada sentimento era grande. Esse meu filho ama grande, odeia grande, perdoa grande, guarda rancores grandes. Não me surpreende. Tudo é grande. Isso agora... não podia ter algo nele que não fosse extremo? Pelo menos isto agora?

       O homem diz: há chances. Mas logo isso... logo isso na vida dele não era grande. Chance. O pai pensa lá fora “que demora é essa? Assim vamos perder o almoço”. Tentava se convencer de que o maior problema deles agora era o almoço. “Prepare-se” é o que diz o homem de autoridade.

       Saem de lá com a mente flutuando nas nuvens do submundo. Um pensamento tão sombrio, que sequer eles mesmos podem identificar. A mãe e o pai se encontram na saída. Há silêncio entre eles. Mas ressoa milhares de vezes um eco demoníaco “Prepare-se! Prepare-se! Prepare-se!”. Que bom... não perdemos o horário do almoço. É lá que tudo se encontra. É lá que tudo se desencontra. O horário do almoço foi felicidade para pai e mãe ao longo da vida, vendo o filho contando suas vitórias. Nesse mesmo horário, se irritaram com os pensamentos absurdos, contrários à fé, aos bons costumes e à moral da família. Você almoça com alguém todos os dias e passa a saber mais do que gostaria.  
 
       É por isso que o pai insistiu a vida toda, todos almoçam ao mesmo tempo e na mesa. Sem TV, sem sofá. Na mesa. Quem não almoça junto não conversa. Não dialoga. Afinal, a TV faz isso pela gente. Família que não almoça junto é família desunida, um bando de estranhos dentro da mesma casa.  
 
Pai e mãe, aparência forte, nunca choraram na frente dos filhos. Sentam-se todos à mesa. E, como tem que ser em qualquer boa refeição em família, o pensamento sai, o escondido aparece. Não foi dita uma palavra até então. E, no silêncio da mãe, o pai escuta quase que telepaticamente: vai ser grande. E chora. Chora com amargura tal, que mais parece que o luto já começou. O choro do pai mais parece um vírus de contágio extremo, que atinge a todos os presentes. O filho diz “vai dar certo” e chora enclausurado.

       Não há luz no ambiente. Ninguém enxerga um gafanhoto pousado no próprio nariz. Com o sol forte do mês de janeiro, nada mais se vê do que névoa, trevas, como se todos já estivessem no hades, local do maior paradoxo: fogo e escuridão. E como fazem todo pai e mãe, há uma invasão de pensamentos “parece que foi ontem”.

       Que pensamento imoral é esse de ele dá e ele tira? Se uma criança não sabe o que é um chocolate, não chora por ele. Quem é esse que dá um chocolate a uma criança e depois tira? Que prazer mórbido se tem em deliciar-se das lágrimas da criança? E pai e mãe pensam coisas muito parecidas. Pois nós vemos entrar no mundo, mas não queremos estar presentes para ver sair. 

       Que espécie de mundo sombrio é esse em que tenho que assistir de perto minha maior vitória ser enterrada ao lado dos meus pais? O que é meu é dele! Mas minha casa, cheia de vida, quero deixar para ele, não um terreno cimentado. Não... nesses termos, a vida não existe. Posso continuar respirando, coração bombeando sangue, mas, desse jeito, não tenho mais vida.

       Pai e mãe se permitem o impensável. Questionamento imoral, infiel, desleal. Há de fato um Deus? Prove! Não parece! Quase imediatamente, auto-repreensão e pavor: quem sou eu para questionar? Eu tinha esse direito? Existe e tomara que não me castigue merecidamente ainda mais pelo meu desaforo. Deus é vingativo e zombeteiro. Com Deus não se brinca. Pedem perdão, assim como a vítima da tortura implora piedade ao chefe da máfia.

       Pai e mãe não trocam uma palavra. Mas ambos sabem o que o outro sente. As chances não são nulas. É, mas são pequenas! Só que não nulas! Filho, vai dar certo. Sim, eu sei. Não... ninguém sabe. Vai dar certo. Como? Que certeza é essa? Não! Ninguém sabe!!

       As chances são pequenas. Existem. Em algum lugar, existem. Sim, há chances. Não tem tratamento certeiro. Mas há chances. Respiram aliviados. Não dá pra chorar o tempo todo. Tem que haver um alívio. Ninguém suportaria a vida se não existisse alívio. Tem um alívio, uma esperancinha, uma chance. Só sentimos fome porque podemos solucioná-la. A angústia da fome não é páreo para a chance de comer. Há sempre uma chance. É nisso que se baseia a glória de Deus. Fazer sofrer para poder salvar e ganhar os créditos só pela parte boa. Perdão Senhor, quem somos nós?

       Recebem a ligação. Podem vir. Todos têm medo, confiança, pavor, alívio. Seu filho pode ficar bom. Obrigado doutor... salve-o. Vou tentar. Cirurgia sem dúvida? Sim... tá tudo espalhado. Pai e mãe, pensamentos em turbilhões. Mãe, quanta demora, cadê as notícias. Pai, entreguei um vivo, não quero receber um saco. Mãe, Deus põe as mãos. Pai, não pode... não pode... tem que dar, senão não quero mais nada. Pai e mãe, doutor?! Conseguimos! Agora é torcer pelo resto... nada é garantido, mas há uma chance. Preparem-se para tudo.

quarta-feira, 21 de março de 2012

A criminalização da ignorância

Que estamos em um mundo que reprime em vez de celebrar a diferença, disso não temos dúvida. O grande problema é que os novos defensores dos oprimidos se julgam os porta-vozes do “Viva a diferença”, mas não passam de mais uma corrente opressiva contra a diferença.

Em primeiro lugar, o discurso mais moderninho, na modinha e “descolado” é “somos todos iguais, por isso devemos respeitar a todos”. Discurso que suprime, oprime, reprime toda diferença e pensamento contrário à maré. Em primeiro lugar, não somos todos iguais. Temos, sim, igual valor. Mas não somos iguais! Ser igual não é o real motivo para respeitar alguém. O motivo de se respeitar alguém é pelo simples fato de ser alguém. Então, em vez desse discurso hipócrita de “somos todos iguais”, por que não sermos ainda mais nobres e falar “somos diferentes uns dos outros, mas devemos respeitar cada um na sua diferença”.

O grande problema está aí. Celebramos a igualdade no momento em que deveríamos celebrar a diferença. O discurso “somos todos iguais” gera mais intolerância do que se pode imaginar.

Neutralização da língua

A origem do politicamente correto se deu nos EUA, no século passado e tinha como objetivo neutralizar a língua com relação ao preconceito. Esse movimento chegou ao Brasil com a mesma ideia. Foi aí que foram substituídas palavras como “negro” por “afrodescendente”, “aleijado” por “portador de necessidades especiais”, “homossexualismo” por “homoafetividade” etc.

Qualquer linguista com um mínimo de conhecimento científico sabe que isso é não só arbitrário, como ineficiente. Acontece que a língua reflete os preconceitos da sociedade que a usa. Não é mudando palavrinhas que se muda o comportamento de um povo. É o mesmo que cortar as folhas de uma árvore para ver se ela morre.

A chave está em combater o preconceito! A língua acompanha. Porque das duas uma, ou as pessoas vão continuar usando o termo “negro” com sentido pejorativo, ou vão passar a usar o termo “afrodescendente” e atribuir sentido pejorativo à palavra.

Além do mais, controlar o uso que se faz da língua é uma medida ditatorial controladora de massas. Quanto mais parecido um povo é, mais fácil controlá-lo. Se você pega um conjunto de palavras que não devem ser usadas e impõe uma palavrinha para substituir todas as que foram banidas, você está buscando homonegeidade. Viva a diferença? Acho que não.

Não existem sinônimos perfeitos e é aberrante a tentativa de banir palavras em troca de uma, absurdamente considerada neutra. Absurdamente, digo, pois a palavra é de quem a usa. Ela nunca será neutra, pois o falante nunca será neutro. Cada palavra carrega um sentimento. Se você proíbe palavras, você proíbe sentimentos.

Coisas que não se pode dizer

Temos atualmente uma política do cerceamento da liberdade de expressão quando se considera que o que você diz fere a dignidade do outro. Se pararmos para pensar direitinho, o que hoje é considerado ferir a dignidade são palavras que a sociedade convencionou como tais. Você pode falar sobre o grupo x, pois está convencionado que não tem problema. Se você falar sobre o grupo y, você feriu a dignidade humana.

Acontece uma verdadeira perseguição àqueles que têm pensamentos considerados retrógrados, contra o atual senso comum da nossa sociedade. Essas pessoas não são instruídas sobre novos pontos de vista, são, isso sim, reprimidas, perseguidas, censuradas, caladas e, às vezes, encarceradas.
Viva a diferença? Acho veementemente que não.

Você feriu meus princípios. Você deve se calar

Eu ouvi direito? Infelizmente, sim. Exemplo disso? Pediram a proibição do comercial em que a Gisele Bündchen aparecia de lingerie. O argumento: fere a dignidade das mulheres. Vamos entender melhor: um grupo de pessoas acha que não há problema no comercial, outro grupo acha que há problemas. Como se resolve isso em uma democracia? DIÁLOGO! E obrigar o outro a se calar não é diálogo, não é democracia, chama-se censura ditatorial.

Com que direito, em uma democracia, quando alguém fere nossos princípios, obrigamos essa pessoa a se calar? Não sei, mas acontece e muito no Brasil. Em vez de sermos adultos, que discutem, discordam, exigem respeito através do argumento, usamos da censura e da truculência para, não simplesmente convencer o outro do seu ponto, mas para obrigá-lo a não falar algo que não queiramos. Tentamos arrancar o preconceito a fórceps. Agimos igual a crianças na escola que, ao ser zoadas pelos coleguinhas, chamam o irmão mais velho pra ir bater nos moleques.

“Ah, ele feriu meus princípios”. É direito seu se ofender, é direito seu questionar e dar uma resposta. Mas não é – ou não deveria ser – direito forçá-lo a calar-se. “Em uma democracia, as pessoas precisam aprender a suportar que os seus sentimentos sejam ultrajados” (Bertrand Russell, 1941).

Terrorismo contra o preconceituoso

Esse é um assunto que temos que analisar com bastante cautela. Em primeiro lugar, a primeira pergunta que temos que fazer é “de onde surge o preconceito?”. E a resposta é simples: da falta de conhecimento. Então a pergunta mais importante é: o lugar do preconceituoso é na cadeia ou em um local de instrução?

Vamos pensar concretamente. Uma pessoa é racista. Declaradamente acredita que pessoas de uma certa cor de pele são menos inteligentes. Ela fala isso em público e é presa. Agora eu pergunto: essa pessoa deixará de pensar que pessoas de uma determinada cor de pele são menos inteligentes porque foi presa? Não! Vai continuar pensando, não vai mais dizer em público, pois ficou com medo. Mas vai passar a mesma ideia para o seu filho, que vai passar pro filho e continuaremos a ter pessoas racistas no mundo.

Não se deve combater o preconceito proibindo as pessoas de dizer o que pensam! O terror à expressão de sentimentos considerados repulsivos não resolve o problema e causa novos. Não aprendemos nada com mais de 20 anos de AI-5? Combate-se o preconceito através do debate.

Então, uma pessoa que acha que pessoas de uma determinada etnia são menos inteligentes acha por ignorância. Por desconhecimento dos avanços científicos e dos conhecimentos que temos hoje. Essa pessoa tem que ser colocada em uma sala de aula, em um laboratório e em diversos lugares onde se mostre que todos os seres humanos têm a mesma estrutura cerebral, a mesma capacidade. Isso é provado cientificamente, não temos mais dúvidas disso. Dogmas são defendidos com repressão! Fatos são defendidos com argumentos e provas científicas! E isso nós temos de sobra.

E se a pessoa que foi instruída contra o preconceito não tiver se convencido e mantiver sua opinião? Paciência! Em uma democracia, ninguém tem que ser obrigado a mudar de ideia. O debate serve para tentar convencer, não obrigar.

Em resuno

Não se combate preconceito mudando palavras, banindo pessoas, proibindo de falar. Quando você faz isso, você também é intolerante e você não respeita a diferença de pensamentos. O que está sendo feito hoje no Brasil não é diferente do que tem sido feito por séculos.

O que os poderosos querem não é que as pessoas acreditem em X ou em Y. O que eles querem é que todos acreditem na mesma coisa, seja X, Y ou Z. Em uma sociedade homogênea, a facilidade de manipular as pessoas é maior. E todos estão sendo manipulados e nem sequer percebem. Acham que estão defendendo uma causa nobre. O preconceito não se combate com repressão, mas com diálogo e instrução. Mas, como sabemos, o terror serve mais a quem está no poder do que a instrução. E estamos adoecendo ainda mais o nosso país, enquanto os poderosos enriquecem vendendo placebo. Pense nisso.

Então, o que estamos vivendo no Brasil, através do politicamente correto, censura e criminalização do preconceito, passa muito longe de respeito à diferença e à dignidade humana. Estamos em um país que persegue e oprime, com o aval e a contribuição do Poder Público, quem fere os sentimentos da maioria. Viva a diferença? Estou bem convicto de que não.

Sou veementemente a favor do combate ao preconceito e do respeito à diferença. Acredito claramente que todas as etnias, religiões, pensamentos, culturas têm igual valor, apesar de diferentes. Devemos dizer não ao preconceito. Mas a maneira como ele tem sido combatido pelo Poder Público e pela sociedade como um todo não passa de uma forma modernizada (um upgrade) de intolerância. Intolerância e terror vestidos com roupinhas high-tech.


Em tempo, segue a cronologia da repressão e esforços das classes dominantes pela homogeneidade das massas, para facilitar o controle:

Antiguidade: execução de opositores ao governo ou à moral vigente
Idade Média e início da idade moderna: Inquisição
Idade Moderna: diminuiu bastante, mas o uso da religião ainda era forte com essa finalidade.
Idade contemporânea (século passado, no Brasil): ditadura e censura
Idade contemporânea (séc. XXI): politicamente correto e criminalização da ignorância

quarta-feira, 14 de março de 2012

Este aluno é mais inteligente?

- Fulano é muito estudioso. Só tira 10!
- Ele não é estudioso... é inteligente. Tira nota boa sem estudar.


Como alguns que leem meu blog sabem, há muito ele perdeu o interesse em ser sempre cômico. Eu falo sobre assuntos que me dizem algo e quando sinto que posso contribuir. Esta introdução é só para dizer que tenho me preocupado com uma questão referente à educação. A questão não é nova, mas recentemente venho refletindo a respeito. Muitos de nós já ouvimos o diálogo acima.

Não vou nem discutir como notas de escola não valem grande coisa e como o método de avaliação é ineficaz e injusto. Isso fica para outra discussão. Quero falar sobre esse conceito de aluno inteligente, que é prejudicial tanto para os ditos inteligentes, quanto para os excluídos dessa classificação.

O aluno que compra a ideia de que o inteligente é aquele que consegue boas notas sem estudar pode ser prejudicado, seja ele como for:

1.Aquele que não se encaixa nesse perfil acreditará que a inteligência é dada pelo destino, uns nascem com ela, outros terão que aceitar uma vida de esforços terríveis para conseguir algo. E, infelizmente, ele é um destes. Por um lado, pode ser bom, pois ele vai se esforçar mais e vai aprender mais. Por outro, isso é terrível para sua autoestima, o que gera sofrimento e pode até gerar dificuldades de aprendizagem.

2.Se o aluno se encaixa no perfil do dito inteligente, acreditará tanto em seu potencial, que não se esforçará. Deixará de se desenvolver plenamente e terá mais autoconfiança do que seria saudável. No futuro, se deparará com um mundo que ele não conhece: o mundo em que nada se conquista sem esforço.

Alguém poderia me dizer “pode ser duro, mas é a verdade, não devemos lutar contra a verdade”. Quem diz isso teria razão e me calaria já aqui, caso essa ideia de aluno inteligente fosse verdadeira. Porém, eu simplesmente acho que este conceito é mentiroso, injusto e ignorante. Seguem alguns pontos que sustentam a minha ideia.

Estilos de aprendizagem

Existem diversos estilos de aprendizagem (Gardner os separa em sete), e cada pessoa tem maior tendência para um diferente. Claro que todos temos um pouco de cada, mas sempre com maior ênfase para um ou dois deles. Aqui, vou me concentrar nos dois mais conhecidos tipos de alunos, por serem suficientes para explicar por que considero mentiroso o conceito de aluno inteligente do exemplo acima: aluno de aprendizagem visual e aluno de aprendizagem auditiva.

O aluno auditivo é aquele que aprende mais ouvindo do que lendo. Basicamente, ele não tem muita facilidade para aprender o conteúdo de uma matéria (e, consequentemente, de uma prova) através da leitura de um livro. Por outro lado, ele ouve tudo o que lhe é ensinado e tem uma grande capacidade de concentração quando recebe informações auditivas. Ou seja, esse tipo de aluno aprende o que lhe diz o professor e o que discute oralmente, não lê em casa e se dá bem nos exames. Este é o aluno dito inteligente, pois não estuda e aprende mesmo assim.

O aluno visual, diferentemente do auditivo, tem facilidade de captar bem o que lê e escreve. Não se concentra tão bem no que diz o professor, mas, ao ler o conteúdo em casa, aprende o que necessita e se dá bem na prova.

Cada um dos dois tem suas vantagens e desvantagens. A vantagem do auditivo é que ele não precisa* trabalhar mais em casa. O que o professor falou é suficiente para suas notas. Sua desvantagem é que a leitura, para ele, não é um ato tão natural e exige dele um esforço muito grande para manter a concentração. O aluno visual tem a desvantagem de precisar continuar seu trabalho em casa, porém a leitura é algo natural e ele pode ler livros com maior tranquilidade.

Analisando esses aspectos, passa a ser até estranho pensar que as pessoas consideram mais inteligente o primeiro tipo de aluno, não? Claro, tampouco o segundo tipo é o mais inteligente. Ambos têm formas distintas de aprendizagem, não podendo, de forma alguma, um ser considerado mais inteligente do que outro por isso.

* Não precisa para tirar notas boas. Mas notas boas não são suficientes para desenvolver o senso crítico de um indivíduo.

O que é inteligência?

Mesmo que considerássemos como inteligência a facilidade de aprendizagem, aqui mesmo já excluiríamos a ideia de que o aluno que tira boas notas sem ler em casa é o mais inteligente. Ele tem mais facilidade para aprender o que ouve e o outro tem mais facilidade para aprender o que lê. Ambos seriam considerados igualmente inteligentes.

Mas eu queria ir mais longe na ideia de inteligência. Não pretendo responder em definitivo o que é inteligência, mas dar uma noção mais importante do que aprender o que se ouve ou lê para a inteligência. Estamos acostumados a acreditar que a inteligência ou você nasce com ela, ou você é um azarado estúpido que vai ter que se contentar com abdicação, esforço ou trabalhos braçais. Trata-se de uma afirmação sobre a inteligência mentirosa e, até mesmo, levianamente utilizada por alguns.

Alunos que tiram boas notas na escola (e aí já entra uma parte da ineficiência da avaliação por testes com notas) não são necessariamente pessoas de senso crítico apurado. Quando você é um auditivo que ouve bem o que o professor disse ou um visual que entende tudo o que o livro da escola diz e escreve na prova o que o professor considera certo, não significa que você é uma pessoa crítica, consequentemente, inteligente (no conceito que estou tomando para inteligência). Chamá-lo de mais inteligente seria correto (e até óbvio) em uma linha de pensamento comportamentalista, de Skinner, em que o professor é um transmissor de conhecimentos. O aluno que entende o que o professor diz é inteligente, neste caso. Nesta visão, o professor é o retentor do conhecimento e ignora-se que o aluno tem um conhecimento prévio, pode obter conhecimentos posteriores e formar um pensamento ímpar. Mas a educação há muito tempo não é mais (ou não deveria ser) vista desta maneira. O professor, para exercer bem sua atividade, deve deixar de tentar fazer o que ele não pode (dar conhecimento) e se aperfeiçoar no que ele pode e deve fazer: ajudar o aluno a buscar conhecimento e, através desta prática, formular o seu próprio pensamento.

Digamos que um professor afirme que, na Segunda Guerra Mundial, a Alemanha cometeu o maior genocídio da história. O aluno que ouviu ou leu isso e respondeu à pergunta “Quando e onde ocorreu o maior genocídio da história?” com “Durante Segunda Guerra Mundial, na Alemanha”, é necessariamente um aluno inteligente? Certamente terá nota máxima nesta questão, mas ele buscou outras fontes ou confiou no primeiro que falou? Ele entendeu por que afirmam que este foi o maior genocídio da história? Ele buscou saber se houve maiores genocídios que esses? Um bom exemplo de genocídio foi o que sofreram os indígenas americanos, por parte dos Portugueses, Espanhois e Ingleses. Será que ele sabe disso? Se ele não souber deste ou de outro(s) genocídio(s), que ferramentas ele tem para poder dizer que o período do nazismo foi um dos maiores ou o maior? Simplesmente porque o professor disse? Não pretendo, de forma alguma, negar que o nefasto período nazista causou o maior (ou um dos maiores) genocídio(s) da história humana. Mas digo categoricamente que um aluno não deve aceitar isto como fato só porque seu professor disse ou porque leu no seu livro de história.

Assim, não podemos considerar que o papel da escola foi cumprido se o senso crítico do aluno não foi desenvolvido. Então, considero inteligente aquele que tem autonomia para, além de receber uma informação, questioná-la, buscar outras fontes e formar seu próprio pensamento.

Desenvolvendo a inteligência

Em suma, todos os tipos de alunos têm igual potencial. A diferença está no que eles fazem dele. Não se nasce com ou sem inteligência, assim como não se nasce musculoso. Quando alguém vê um juiz, que, como todos sabem, foi aprovado em um concurso difícil e derrubou milhares de candidatos, a tendência é dizer “esse aí é um crânio, muito inteligente”. Mas o que as pessoas ignoram, são as horas e horas de estudo diários que ele enfrentou, a renúncia aos lazeres e tantas coisas mais. Os amigos indo às festas e ele estudando oito horas por dia e/ou frequentando cursos preparatórios.

O nosso corpo não desperdiça energia naquilo que não lhe é útil. Temos um organismo inteligente. Assim, nosso organismo só gasta energia fazendo crescer os músculos, se levantarmos peso. O corpo vai interpretar que precisa se fortalecer para suportar aquela carga. Com o cérebro não é diferente. Seu senso crítico, capacidade de formular suas ideias só se desenvolverá se você trabalhá-lo. Se você não fizer atividades que exijam isso, seu cérebro vai considerar que isso é inútil, já que não faz parte da sua vida.

Assim, ninguém nasce burro ou inteligente. Nascemos com uma capacidade de desenvolver nossa mente. Uns a desenvolvem mais, outros menos. E não é ouvindo o que diz um professor e respondendo igual na prova que alguém poderá se considerar inteligente. O inteligente tem a capacidade de buscar conhecimento e gerar o seu próprio. Ele lê ou ouve algo e não aceita de primeira, pois sabe que há opiniões diversas. Busca mais e, ao final, não só faz um resumo do que leu ou ouviu, mas emite sua própria opinião a respeito.

Logicamente, não é preciso ser um leitor ou um acadêmico para ter senso crítico. Um aprendiz de pedreiro que vê seu professor fazer uma parede e é capaz de melhorar a técnica e erguer uma parede mais sólida também é um ser pensante, dotado de senso crítico, inteligente no que faz. O mais importante é entender que ninguém nasce com isso como um presente dos deuses, enquanto outros foram amaldiçoados com a estupidez: é preciso buscar isso e, aqueles que conseguem, foi por esforço e mérito próprio.

Então, os alunos que aprendem bem com o que dizem os professores, que se esforcem para buscar outras fontes, mesmo que isso exija esforço de leitura. Aqueles que aprendem bem o que leem, não se acomodem na leitura que o professor considera certa. Questione, busque outras ideias. E a todos eles, o maior conselho: não se contentem com apenas uma opinião a respeito de um assunto e, se conhecer várias opiniões (o que é um passo importante), não se limitem apenas a descrevê-las. Criem seu pensamento, deem a sua própria ideia. Essa sim, é uma pessoa crítica, autônoma, que resolve seus problemas e não é enganada facilmente. Apesar de eu ter muitas restrições a esse adjetivo, me atrevo a dizer que essa sim é uma pessoa inteligente.

Por fim, não é justo consigo mesmo olhar para o outro e dizer "que sorte a dele, é tão inteligente". Ele não tem nada a mais do que os outros. O caminho é o mesmo para todos: esforço.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Noção de espaço

Eu andando com minha namorada. Ela fala:

- Amor, por aqui é mais perto.
- Não amor, assim fica longe.
- Claro que não - ela responde - seu caminho é muito mais longo.

Nisso, eu falo:

- Amor, eu tenho mais noção espacial do que você.
- Por que você tá dizendo isso?! Só porque eu sou mulher?!
- Não, porque você está demonstrando isso agora.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Esclarecimento

Como eu falei no texto original e repeti várias vezes e muitos não viram, repito: NÃO defendo o Júlio. Foi um idiota! Não concordo com o que ele disse. Amo meu estado. Mas acho que a população exagerou e esqueceu de ver que ela também faz piadas com os outros. Só isso. Quanto à OAB está cumprindo seu papel. Mas acho que o povo deve pegar mais leve com ele. Linchamento moral e ameaça de morte não resolve nem mostra o povo que somos. Somos melhores que isso.